João encontrou Maria no meio da floresta. Ela não estava perdida, ele é que estava. Como Maria não estava perdida ela resolveu guiar o caminho de volta a civilização. João foi atrás de Maria e, sem pensar muito, fechou os olhos e deixou-se levar. Dias se passaram, meses, anos, e nada de civilização. João começou a pensar que Maria de fato não quisesse levá-lo onde ele queria mas sim a um labirinto. Perdido João encontrou Maria e perdido João estava depois desse tempo todo. Será porque Maria assim o queria ou por que Maria não estava mais perdida depois que encontrou João? Vai saber quem iludiu quem. Desiludido João ficou, Maria também. João não presta, é um ingrato, estúpido que não sabe reconhecer a verdadeira Maria com quem esteve todo este tempo. João idem. De forma abrupta, análoga a como se encontram no meio da floresta, se perderam novamente. Não se odeiam, mas não faz mais sentido estarem juntos. João parou, pensou e, entre um suspiro e outro, concluiu: – a única coisa realmente certa é que toda desilusão é uma forma onipotente de se iludir. Não demorou para João encontrar a civilização. Estava bem embaixo do seu nariz.
Textos categorizados 'filosofia'
João e Maria (versão wtf) – by Jimbow
Publicado 24 Setembro, 2009 Sem Categoria 4 ComentáriosTags: filosofia
Bob Dylan e o eterno retorno
Publicado 27 Abril, 2009 Dicas & Idéias Deixar um ComentárioTags: filosofia, música
Jimbow, drifting over the music..
Por que Bob Dylan é tão famoso? Porque ele consegue traduzir a complexidade da vida em letras precisas mesmo em cima de melodias simples e uma voz, na minha opinião, terrível. Quem já viu um show de Bob Dylan pode atestar que ele parece não gostar de cantar e o faz apenas porque tem um microfone na frente.
A combinação complexidade lírica + simplicidade melódica + voz terrível parece hipnotizar os seus fãs. A vida é mais ou menos assim não é? Simples, porém complexa, e de vez em quando com alguns momentos ruins (ou terríveis).
Quando se está sozinho, distante físicamente ou psiquicamente de tudo e todos e escuta-se Like a Rolling Stone, o coração alivia o aperto. É como se Dylan estivesse no mesmo barco que você, cantando How does it feel, to be without a home, like a complete unknown, like a Rolling Stone. Traduzindo: como é sentir, não ter um lar, como um completo desconhecido, sendo uma pedra que rola – entenda: ser ninguém, um nada. Respondo: é ser forte. Não existe tanto espaço para fraqueza nesta situação.
A vida é imprevisível. Por mais que tento controlá-la percebo que a quantidade de variáveis incontroláveis é muito maior. É tipo aquela história trágica que você escutou: poxa, fulaninho era todo correto, dirigia a no máximo 60Km/h e um belo dia indo para a praia um passarinho bateu no pára-brisa quebrando-o, fazendo com que ele caísse na ribanceira e falecesse. Quem poderia imaginar um passarinho batendo no pára-brisa e matando fulaninho? É por esse tipo de coisa que tanta gente acredita em destino, o famoso quando tem que ser será. Eu não gosto de acreditar no destino, me faz sentir ainda mais uma marionete na mão do desconhecido.
O ponto é: o presente é muito valioso. Por mais que quase sempre projetemos as nossas vidas, nunca devemos esquecer disso. A vida é um filme cósmico, quando morrermos nós veremos, repetidamente, tudo o que vivemos, para toda a eternidade. Diante disso, eu tento viver coisas que valham a pena serem tantas vezes revistas. Já vivi várias e quero viver mais.
Por fim, finalizo de maneira um tanto poética: quero me transportar, flutuar por entre as notas, pelo carisma de uma bela canção, por caminhos nem sempre belos mas que lá no fundo, te fortalece e faz perceber que és só mais um no mundo e que isto faz parte da vida.
E você segue rolando, como uma pedra.
Thank you Mr. Bob Dylan.
Jimbow, suspicious mind.
Ao longo dos anos mudamos nossa forma de encarar a vida, faz parte da evolução pessoal. Alguns dizem que estamos deixando de lado e virando a casaca quanto a crenças tidas como máximas no nosso jeito de agir e pensar mas digo que isso é bobagem.
A linha filosófica de Nietzsche, por exemplo, pode ser dividida em três ou seja, ele evoluiu e também mudou o seu jeito de pensar ao longo dos anos.
Quanto mais conhecimento adquirimos mais propensos estamos a mudar. Não é feio mudar, feio é ficar parado no tempo. Quem fica parado é pedra.
Recentemente me dei conta de que evolui muito minha linha de raciocínio e julgamento das situações. Por exemplo: penso que chorar não é demonstração de fraqueza. O choro muitas vezes é uma expressão de vazão necessária diante de uma angústia ou sofrimento mais sério. Até mesmo chorar num filme não me impressiona mais negativamente, nem me diminui como homem.
Outra mudança: julgamento precipitado de situações e pessoas. É extremamente comum efetuarmos um julgamento de valor baseado em primeiras impressões. Certa vez um juiz de direito, com seus 55 anos, me disse: “é tão difícil julgar. Você não faz idéia. Muitas das respostas estão na filosofia. Apesar de você ler tantas informações contidas nos autos a interpretação da lei não é uma ciência exata, o que torna ainda mais difícil a tarefa”. Depois disso penso 10 vezes antes de fazer qualquer julgamento sobre alguém ou situação. É necessário conhecer MUITO bem todas as variáveis, versões e, ainda assim, você pode falar besteira.
Mais uma: quase todos evoluem musicalmente. No começo, rola só heavy metal no juízo e o cara compra uma guitarra elétrica para imitar o Slash do Guns n’ roses. O pior é que tem alguns guris que ainda acham que o Slash inventou a guitarra elétrica. Depois de um tempo você percebe que tocar um samba e ver a mulherada dançar é muito mais interessante do que ficar headbanging no meio de um monte de gente de preto, embora aquele CD de heavy continue no seu carro. A mulherada sambando é uma coisa linda. Passinho pra lá, prá cá, bunda pra lá, prá cá. Viva o samba e as mulheres que se propõem a sambar!
No final de tudo você apenas ampliou o seu horizonte. Aquela velha história: quanto mais eu adquiro conhecimento mais percebo que não sei de nada – Sócrates e a filosofia novamente, “só sei que nada sei”.
Karl Marx certa vez disse: “A filosofia veio para explicar o mundo. Agora, cabe a nós mudá-lo”. O primeiro passo é começar por nós mesmos.
Conhece-te a ti mesmo
Publicado 2 Abril, 2009 Dicas & Idéias 3 ComentáriosTags: filosofia, relacionamento
O título deste é famoso, vem de muitos anos atrás na Grécia antiga quando um certo alguém chamado Sócrates resolveu que o logos (conhecimento) era o pai da racionalidade e que a tragédia grega e sua falta de razão mudariam de rumo vertiginosamente. O ponto é: conquistar os outros, o mundo talvez, é fácil. Difícil é conquistar a nós mesmo.
Teríamos um “saco de cose” para discutir em cima da retórica acima, mas acabo escolhendo associá-lo aos relacionamentos passionais. Complicado?
Quando conhecemos alguém e nos apaixonamos é como se todas as nossas carências fossem supridas. O ser humano é carente. E somos, sobretudo, um animal impulsivo, dominado por forças que escapam ao controle integral e autárquico da sua consciência. Isso significa que o que de fato nos atrai em determinado alguém muitas vezes é racionalmente inexplicável. Eu acredito que é justamente o que foge do controle. Puramente instinto. É o que nos faz lembrar que essencialmente somos simples animais. E a natureza é tão sábia que colocou no sexo o prazer de perpetuar a espécie. Duro de acreditar, mas somos marionetes neste sentido.
Alguns, diante do escrito acima, talvez tenham vontade de sair no meio da rua pelados comendo todo mundo mas não é bem assim. Existe a sociedade e seus princípios. A educação, quando aplicada, nos torna um pouco diferente dos animais “irracionais”. Então, a(o) sua(eu) parceira(o) na maioria das vezes não é escolhida(o) baseado nos seus instintos. O relacionamento ideal deveria ser o casamento entre o racional e o irracional. Filosoficamente falando, entre Apolo e Dionísio. Os dois lados da moeda. Mas, não é bem isso que acontece.
Vivemos baseado nas experiências paternas, nas amarras de classes sociais, interesses e tudo mais que nos faça ficar chateado por, inconscientemente, acabarmos sendo influenciados por isso tudo.
Quer dizer que não somos donos do nosso destino? Talvez. Ou talvez qualquer forma de onipotência também seja uma forma de ilusão. E ao percebermos que nossos instintos estão de lado e que eles te cobram um preço, acabamos racionalizando em prol da corrente otimista universal que rege as nossas vidas.
Sócrates, mesmo sendo o pai da razão, no final abraçou a tragédia grega. É muito difícil viver só de dicotomias, racionalidade. É necessário viver a cultura, a paixão. Ou ainda, uma tragédia grega transfigurada em drama artístico: tudo que nasce – mesmo o que há de mais grandioso – tem de parecer para que o ciclo da vida se perpetue. Sem destruição, não há criação; sem trevas não há luz; sem barbárie e crueldade não há beleza nem cultura.
Complemento: sem um fim doloroso não existiria uma grande paixão…
(Nos ouvidos: Gotan Project – La Revancha Del Tango)
Autor: Jimbow



